/pré/

•05/02/2018 • Deixe um comentário

eu tô tentando

as portas abrem

os corpos caem

uns sobre os outros

os mesmos assassinos

de sempre, do pátio

das escadas, dos corredores

se amontoam como um massa branca, amorfa

mil braços, mil mãos

os gritos ecoam pelos túneis

 

(¡run!)

 

eu tô tentando

eles invadem os barcos de fuga

os vagões, as esquinas

gritam, incham, inflam

até que eu fique

espremido, pressionado, esmagado

entre

o vidro gelado e seus corpos quentes

revivendo tudo aquilo de novo

em looping

até vomitar

y todos se afastam com nojo rindo gritando como machos

(¡bichaviadoboiola!)

 

eu tô tentando

eles se pintam como nós

se vestem, se camuflam

se infiltram

como um de nós

até que se percebe – tarde, muito tarde

o sorriso de escárnio, o brilho falso

a roupa por debaixo da pele

o desejo de tomar, colonizar

como pequenos midas eles avançam

distribuindo novas jaulas, novos currais

as mesmas regras que eles forjaram

há mil anos

gravadas em nossos corpos

impostas mais uma vez, assim

no meio da festa

como se nada tivesse acontecendo

 

eu tô tentando

e vejo os meus serem tomados

um a um

no meio da guerra, no meio do campo

desligados, esvaziados

assimilados, como naquele filme

e naquele outro

repetem os gestos como quem segue o deus da dança

da morte, como os ratos e as crianças seguiram

aquele flautista

vejo os meus tombarem, exaustos rastejarem

por um breve lampejo de uma falha no isqueiro

seus ossos moídos, triturados

expostos em museus e galerias, em pequenos sobrados

no centro da cidade

e os velhos senhores, fantasiados com os nossos rostos

dançam sobre os fantasmas

.

..

.

.

.

.

.

.

.

.

.

 

.

.

.

 

.

.

.

 

.

Anúncios

até os ossos

•30/01/2018 • Deixe um comentário

eu queria escrever

mas tudo desmorona

minhas mãos, a tinta

a luz

tudo cai

o ponto não se faz

desanda o bolo, a massa

a água

 

eu queria escrever mais

o novelo gira e o monstro devora

as linhas, o anzol, o gancho

o capitão abandona o navio antes

 

eu queria deixar de ser

como num filme o corpo se desfaz

os apartamentos delicadamente decorados

e os ventos do nortes e os moinhos

imóveis

a soma de todas as tintas não chega

 

mais uma mensagem

eu queria escrever mais uma mensagem

digitar com os dedos leves e ágeis

deslizando sobre a superfície lisa e fria

mas rachaduras e fissuras se abrem,

rasgam minha pele

hasta los huesos

.

.

.

.

..

 

.

.

..

.

 

.

.

.

.

.

.

.

•06/08/2017 • Deixe um comentário

some fucking poetry

•06/08/2017 • Deixe um comentário

era um chiclete,

mentira

um bandaid de hello kitty

usado, largado, arrancado

perto dos ovos

 

não havia mais nada

em todo o universo

e os peixes pendurados

enormes ganchos enferrujados

perfurando os lábios e as escamas

reluzindo no sol frio de agosto

aqueles olhos, aquele olhar

de peixe morto

 

foi assim que eu esqueci

de respirar

 

 

 

 

§

la última vez que fui hombre

•11/06/2016 • Deixe um comentário

no me recuerdo la última vez que fui hombre! yo soy una nueva amalgama de subjetividades sexuales
vou ficar na cama & escrever uma pós-poesia

chamada dor de drone

e que vai começar assim outro dia entraram no meu quarto mas ñ era eu
e vai acabar assim ñ há paixão que queime esse silício todo
calaboca
calaboca!
eles estão no perímetro do tiranossauro
Ó! sr deus dos clonados
deixe-me mamar nas tetas de dolly e beber esse leite idêntico
ao leite derramado
‘stamos em pleno mar

/pós-poesia. técnica mista. grupo de whatsapp. 02.06.2016/

 

falar-se, ñ

•10/03/2016 • Deixe um comentário
“Ariadne:
Falar é falar-se.”
Julio Cortázar, Os Reis

 

 

não se pode mais falar

não se pode mais tecer

meus delicados fios da morte

 

estamos mudos com dedos frágeis

 

não se pode mais olhar

olhos nos olhos, quero ver o que você diz –

pedra

 

não se pode mais andar

vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser

faca amolada

 

escorpiões e aranhas e ratos, oh my!

 

não se pode mais chorar

não se pode mais olhar para trás

sal

 

somos o nosso peso em medo

 

ossos correm em teclas que não

realmente não existem

nossos tímpanos furados, sangrados

não ouvem mais nada além

da repetitiva cadência rítmica do nosso coração

 

 

 

 

 

 

horas assim

•17/01/2016 • Deixe um comentário

horas assim

e a cama não se desfaz sozinha

as linhas e os gatos no telhados

não deixam que eu me desfaça

 

horas e horas

a chuva não seca e as roupas

demoram

as larvas avançam na pia e o resto

 

o relógio alimenta

lento

meu ódio

seco

 

não resta um punhado dessa areia

tão seca, tão dura

tão doce na qual você

se lava –

as larvas avançam sobre seus olhos fechados

cerrados

você finge que dorme eu simulo o seu dia seguinte

na correria que não acontece, os filhos que não temos

 

horas assim

teço o manto com o qual

te espero

horas e horas e a coberta

o nosso fio cortado